terça-feira, 27 de setembro de 2011

A filosofia da práxis segundo Adolfo Sánchez Vázquez

Adolfo Sánchez Vázquez é um filósofo prolífico que refinou suas argumentações ao longo de muitos anos. Fiel a sua convicção libertária, elevou constantemente sua voz de protesto porque, disse: “o importante é como se está na terra”. Em 1961, apresentou como tese de doutorado, a qual considera sua obra maior, Filosofia da práxis. Desde então, uma de suas ambições tem sido que se supere “o dogmatismo e a esclerose que durante longos anos havia suavizado o viés crítico e revolucionário do marxismo” (1985: 11). Editou a Filosofia da práxis em 1967; depois de numerosas reimpressões, tal “fio crítico” o obrigou a eliminar na reedição (1980) colocações que já não compartilhava sobre a essência e a alienação humanas para adentrar nas propostas filosóficas e econômicas do jovem Marx. E este processo de revisão não termina até a última edição em 2003, na qual refaz e precisa a absolutização do proletariado como a classe majoritária que dominará a terra e protagonizará a derrota do capitalismo, assim como sua ojeriza pela palavra “utopia”, herdada dos ataques que este mesmo filósofo alemão escreveu contra os chamados socialistas utópicos, e, por último, deixa para trás sua antiga paixão concordante com as reminiscências positivistas do Marx aficionado com a palavra “ciência” (e seu método nomológico-dedutivo, ou segundo quantitativas leis probabilísticas), que ao longo dos séculos XIX e parte do XX concebeu-se como a possuidora da Verdade absoluta, no lugar da religião...

Texto de María Rosa Palazón Mayoral disponível para download: clique aqui.

Sociologia no Ensino Médio: dois pontos de vista

Olá pessoas!
Compartilho um material que nos ajude a pensar a prática de ensino da Sociologia no ensino médio, a licenciatura em Ciências Sociais e demais questionamentos e crises que temos ao discutir essa temática.
Boa leitura.

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SOCIOLOGIA NO ENSINO MÉDIO:
Entrevistas com Márcio da Costa e Santo Conterato
Junho de 2009

Em junho de 2008, o Presidente da República em exercício sancionou a lei que torna obrigatória a inclusão das disciplinas de Sociologia e Filosofia em todas as instituições de Ensino Médio do país. Essa novidade levanta muitos pontos para discussão e análise. Um deles é sobre o impacto dessa lei na demanda por profissionais da área. E sem dúvida alguma o próprio sentido da Sociologia como disciplina precisa ser posto em relevo. A Revista Habitus traz duas entrevistas com diferentes pontos de vista sobre o assunto. Cada entrevistado respondeu a três questões, sendo duas delas comuns a ambos e uma terceira específica para cada um. Falaram conosco Márcio da Costa, professor associado da UFRJ, com experiência na área de educação, ênfase em sociologia da educação, política educacional, teoria sociológica, avaliação de impacto de políticas públicas e avaliação educacional; e Santo Conterato, diretor administrativo da Associação Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro e organizador do livro “A profissão do sociólogo e a sociologia no Ensino Médio” (Rio de Janeiro: APSERJ, 2006). As entrevistas foram realizadas por Juliana Marques da Silva e Márcia Regina Castro Barroso, estudantes de graduação em Ciências Sociais na UFRJ.

Revista Habitus: A importância do ensino da sociologia no ensino médio não é um consenso. Seu reconhecimento está, em grande parte, apoiado na concepção de que ele pode auxiliar na formação de valores relacionados à cidadania do modelo democrático liberal no qual estamos inseridos. O que o senhor pensa a respeito?


Márcio da Costa: Minha posição pode ser antipática diante de meus colegas sociólogos. A própria pergunta já permite antever o caráter doutrinário que os defensores da disciplina sociologia no ensino médio pretendem lhe atribuir. A sociologia não é uma disciplina normativa, como os conscientizadores pretendem configura-la. Valores são objeto da sociologia. É claro que, como ciência, filha do iluminismo, ela guarda afinidades com elementos característicos da modernidade, mas está longe de ser um bom recurso para ensinar valores de tal ou qual tipo. Aliás, sou fortemente cético quanto à possibilidade de disciplinarização de valores. Na história da educação, são fartos os exemplos de tentativas de usar disciplinas escolares como veículo de moralização compulsória. A sociologia para valer não se presta ao proselitismo político, ao discurso moralizador, mesmo que travestido de feições supostamente liberais ou afinadas com retóricas pró direitos e liberdades. A ditadura militar, no Brasil, tentou ordenar todo o currículo nacional a partir de um eixo moralizante constituído pelas disciplinas Educação Moral e Cívica , Organização Social e Política do Brasil e Estudo de Problemas Brasileiros, respectivamente no nível fundamental, médio e superior. Foi um fiasco.

Ao final da ditadura, autores de esquerda, imbuídos da rationale gramsciana, resolveram “aproveitar as brechas” – para preservar a retórica dessa corrente – e cometeram aberrações como, por exemplo, livros de OSPB. Boa parte de nossos livros didáticos de história ou geografia são manuais doutrinários que, ao se pretenderem “contra-hegemônicos”, são apenas a outra face dos manuais da ditadura, esses eivados do ultra-nacionalismo do Brasil Grande, Brasil Potência. É como se substituíssemos as decorebas de datas, fatos, heróis, devidamente filtrados pelos guardiões conservadores da verdade oficial, por tratamentos autodenominados críticos, mas que, no fundo, eram igualmente doutrinários, recheados de denúncias, sem apreço pelo teste das evidências, pouco afeitos ao verdadeiro debate, à apresentação de versões diversas, a aquilo que parece mais próximo da possível versão escolar de uma formação de base científica.

Temo que a defesa da sociologia como disciplina escolar seja apenas sucedânea desse afã conscientizador, nefasto e ineficaz. Nefasto porque empobrece a já tão precária formação de nosso alunado. Ineficaz porque se baseia em esperança naquilo que chamamos de “socialização perfeita”. O sonho dürkheimiano para a educação, que supõe alunos passivamente absorvendo conteúdos e valores transmitidos por seus mestres. Felizmente, parece que isso não funciona muito bem.

No fim das contas, a sociologia será apenas mais uma, entre as 12 ou 13 disciplinas, todas com conteúdos ultra-especializados, apreendidos e ministrados com incrível precariedade pelo sistema escolar submetido à expectativa de apreensão de uma overdose de conhecimentos de qualidade e utilidade, no mínimo duvidosos. As fantásticas “batatas” extraídas das redações de vestibulares ou de coletâneas de provas de professores, são uma das demonstrações dessa sopa de entulho mal digerida.

Penso a introdução da sociologia como disciplina obrigatória como resultante, esquematicamente, de três vetores: 1) a ignorância sobre o que é a sociologia e conseqüente esperança de que ela cumpra papel “civilizatório”, uma espécie de manual de boas maneiras cívicas; 2) a aparentemente libertária vertente gramsciana, que pretende fazer da sociologia mais um espaço institucional de propaganda e proselitismo político e; 3) a busca de criação de uma reserva de mercado para licenciados em ciências sociais, um curso superior relativamente fácil de entrar, igualmente fácil de sair, mas com forte imprecisão quanto aos destinos profissionais de seus egressos.

Santo Conterato: No meu entendimento, e com base na experiência do trabalho pela inclusão da Sociologia nos parâmetros curriculares do ensino médio, o questionamento com relação à presença da disciplina na grade curricular não se referia propriamente à importância do ensino da Sociologia e sim, em primeiro lugar, a mais uma disciplina na grade. A programação das secretarias prontinha, com as disciplinas tradicionais arrumadinhas, com seu espaço definido, não comportava, na comodidade dos burocratas, mais uma disciplina que implicava na modificação do esquema já montado. Em segundo lugar, a reação de donos de estabelecimentos privados de ensino que afirmam que, com mais uma disciplina, há necessidade de mais docentes, onerando seus cofres, E, finalmente, a inércia dos acadêmicos lotados nos departamentos das IFES preocupados com as bolsas fornecidas pelo MEC, entendiam que a introdução da sociologia no ensino médio não lhes traria ganho nenhum.

O reconhecimento, com certeza, tem a ver com a força das argumentações sobre a importância da sociologia, não tanto como simples auxiliar na formação de valores cívicos, mas, e principalmente, que podia oferecer ao estudante novos modos de pensar ou construção e desconstrução de modos de pensar. Ou seja, a proposta do pensamento sociológico é o de realizar a desnaturalização das concepções ou explicações dos fenômenos sociais. E, assim, contribuir para um ensino de melhor qualidade.

Revista Habitus: O conteúdo da disciplina não será mais ministrado de uma forma transversal. Precisará, portanto, de um formato específico. Quais os desafios do curso de licenciatura, na sala de aula e dentro da Universidade, na sua relação com o bacharelado?

Márcio da Costa: Não será fácil ensinar sociologia de verdade, uma invenção do final do século XIX, que pressupõe uma longa trajetória intelectual percorrida pela humanidade, que incorpora complexos debates herdados da filosofia e da economia e que ao tentar compreender a novidade do mundo moderno apresenta vertentes cujas características não são de apreensão trivial. Preferiria que nossos alunos estivessem expostos a mais história, filosofia e literatura. Conhecer mais as seqüências dos acontecimentos relevantes do passado, traços de culturas e civilizações diversas, a história do pensamento, ajudaria na compreensão das reflexões que a sociologia desenvolve a partir do século XIX.

Como já disse, temo que a sociologia como disciplina escolar seja um pastiche doutrinário, pretensamente revolucionário, e/ou algo que não consegue fazer sentido pois os estudantes não dispõem de um ferramental básico anterior. Abordar a sociologia com recortes temáticos como fato social, contato social, interação, classes sociais, estratificação social, movimentos sociais, instituições, cultura, globalização, pós-modernidade, minorias, nacionalismo, localismo, mudanças tecnológicas, desenvolvimento ou democracia me parece uma tentação a tratamentos normativos. Partidas entre fenômenos sociais a que se dedicam, as teorias sociológicas tendem a ficar irreconhecíveis. Por outro lado, a apresentação das teorias sociológicas clássicas de forma mais íntegra, abrindo terreno para suas descendentes contemporâneas, provavelmente é algo distante das possibilidades no nível médio, maçante e complicado, especialmente considerando a overdose de conteúdos a que os alunos já são submetidos.

Felizmente, não me dedico a tratar profissionalmente do ensino de sociologia nesse nível, pois não consigo enxergar qualquer saída realmente boa. Sem maior reflexão sobre o tema, acho que optaria por fazer alguma coisa como uma história do pensamento social no século XIX, contextualizando as polêmicas e preocupações da época, abrindo margem para a apresentação esquemática das matrizes fundantes do pensamento sociológico, trazendo a atualização para o desenvolvimento dos problemas contemporâneos, a partir dos modelos clássicos e suas derivações. Não creio que seria possível faze-lo satisfatoriamente no tempo previsto. A redundância com a história e a filosofia me parece inevitável.

Santo Conterato: Entendo que há três questões aqui: a relação licenciatura/bacharelado, a licenciatura na Universidade e a relação licenciatura/sala de aula enfrentada pelo licenciado. Nós sempre defendemos que o estudante que cursa a licenciatura deve ter a fundamentação fornecida pelo bacharelado. Do contrário, continuará acontecendo o que imperou na pedagogia tradicional do ensino em nossas escolas em que se deu a predominância ao método em detrimento do conteúdo. E assim, qualquer professor pode lecionar qualquer disciplina, com está acontecendo ainda hoje, em algumas escolas, com o ensino da sociologia, por exemplo. É imperioso que o licenciado, antes de aprender as técnicas, os métodos, saiba manejar os conteúdos da disciplina. É o óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues. Ou seja, antes de saber como ensinar o profissional deve saber o que ensinar.

A licenciatura na Universidade está enfrentando um desafio cada vez mais difícil de vencer. Quem procura a licenciatura? Quem ministra os conteúdos do ementário da licenciatura? E como são ministrados esses conteúdos: métodos e técnicas de ensino? Todos os que procuram a licenciatura, a procuram baseados num projeto de futuro profissional, ou por falta de perspectiva de alternativas futuras de trabalho? Os mestres encarregados de orientar os licenciandos o fazem programadamente ou para mero cumprimento de obrigação? E as orientações são baseadas a partir do real que o profissional encontrará ou dentro de um esquema tradicional acadêmico distanciado da realidade da escola de ensino básico? No meu modo de pensar esses desafios são cruciais, em especial para os mestres orientadores.

A relação licenciatura/sala de aula enfrentada pelo licenciado (questão que deve estar cresente aos orientadores das licenciaturas), no meu entendimento, é dramática: a alunada já vem para a escola com problemas familiares, problemas pessoais de adolescente, encontra as salas de aula mal arrumadas, a própria escola quase caindo por falta de conservação. O professor de sociologia (sempre mal pago) tenta preparar uma aula partindo de textos mais complexos para os mais simples. Será que a transposição para uma linguagem acessível não corre o perigo de perder o rigor científico? E a cabeça cheia de problemas da garotada tem condições de assimilar conteúdos sociológicos que exigem um mínimo de raciocínio lógico? Todas estas questões devem ser consideradas quando pensamos na possibilidade da eficácia do ensino da Sociologia na escola fundamental e no preparo dos futuros mestres.

Revista Habitus: Márcio da Costa, o senhor se posiciona contra a inclusão da Sociologia no Ensino Médio. Quais os aspectos negativos dessa política?

Márcio da Costa: Há, em primeiro lugar, um elemento raramente tratado nessa polêmica: a forma nada adequada com que a sociologia entra nos currículos. Não é razoável remeter ao Congresso Nacional a decisão sobre currículos escolares. Há fóruns bem mais adequados para tratamento dessa questão. Creio que um dos aspectos negativos dessa política é o próprio acolhimento da demanda pelo Congresso, alargando o caminho para que questões dessa ordem passem a se tornar temas de decisão legislativa.

Por outro lado, tomada a partir da ótica particularista de interesses corporativos e de intenções políticas apartadas dos mais graves problemas educacionais, essa decisão agrava o caráter enciclopédico dos currículos no Brasil. Vai na contramão do que deveríamos estar fazendo em nosso ensino básico: reduzindo a grande carga de conteúdos que é comportada por uma pequeníssima parcela do alunado, concentrando o foco no domínio efetivo de conhecimentos de valor realmente abrangente e duradouro. O conteúdo absurdamente detalhado e formalista das ciências naturais, da língua portuguesa e das matemáticas, ganha a “contribuição” das ciências humanas que pareciam mais favoráveis a uma educação mais compreensiva.

Randall Collins descreveu preciosamente a inflação educacional. Podemos fazer um paralelo com a inflação de conteúdos escolares. Qual será o próximo passo ou a próxima corporação que tentará impor sua reserva de mercado ao sistema educacional? Psicólogos? Astrônomos? Biofísicos? Geólogos? Juristas? Economistas? Profissionais universitários do Brasil uni-vos? Há boas chances de espetar algumas horinhas nas escolas. Por quê não?

Revista Habitus: Senhor Santo Conterato, os sindicatos dos sociólogos foram atores políticos fundamentais para o reconhecimento da relevância do tema na agenda política governamental ou não? De quem partiu essa demanda?

Santo Conterato: Na reta decisiva para a decretação da obrigatoriedade da Sociologia em todas as escolas de ensino médio do país os sindicatos dos sociólogos, sem dúvida, foram os atores fundamentais. No entanto, não teríamos chegado a essa etapa da luta sem a participação, na origem do movimento, de grupos organizados da sociedade, de departamentos universitários, dos estudantes de ciências sociais e do ensino médio. Inúmeros movimentos locais em várias regiões do país foram o gérmen que deu seiva à luta pela inclusão da sociologia no ensino médio nacional. A título de ilustração, sirva-nos de exemplo o movimento aqui em nosso estado. Entre outros, um abaixo-assinado encaminhado à “Coordenadora Setorial da Coordenação de Ensino do 2º Grau” de Nova Friburgo, em 1º de outubro de 1985: “Encaminhamos pedido formulado por Sociólogos e Professores do 2º Grau dos Municípios ligados ao CRE de Nova Friburgo, solicitando a inclusão da SOCIOLOGIA no currículo do 2º Grau”. Atenção à data. E, em 1989, a APSERJ conseguiu recolher mais de 3.000 (três mil) assinaturas em documento enviado à Assembléia Constituinte do Estado do Rio de Janeiro solicitando a inclusão da sociologia em todas as escolas do ensino médio. E o Conselho Estadual de Educação, junto com a Secretaria Estadual de Educação realizaram dois encontros, em 1989, para estudar a possibilidade de inclusão da sociologia na grade curricular. Além da APSERJ, participaram mais quinze grupos, entre universidades, sindicatos de professores e associações de estudantes secundários. Tudo isso está relatado no livro, publicado pela APSERJ, “A Profissão de Sociólogo e Sociologia no Ensino Médio”. Assim, desde 1989, a sociologia consta como disciplina obrigatória nas escolas do Rio de Janeiro.

Movimentos similares aconteceram em vários estados que deram substrato e força para que os sindicatos dos sociólogos conseguissem, junto ao Conselho Nacional de Educação, a decretação da obrigatoriedade da disciplina em todas as escolas de ensino médio do país.

A Revista Habitus agradece aos entrevistados Márcio da Costa e Santo Conterato



Fonte: Revista Habitus – IFCS/UFRJ Vol. 7 - Nº 1 - 2009

Ciência e Política: duas vocações

http://books.google.com/books?id=Uvm6zVyYCYsC&printsec=frontcover&hl=pt-BR#v=onepage&q&f=false

domingo, 25 de setembro de 2011

Marx e Educação

Karl Marx

O pensador alemão, um dos mais influentes de todos os tempos, investigou a mecânica do capitalismo e previu que o sistema seria superado pela emancipação dos trabalhadores


Foto: Recentemente, Marx foi eleito o filósofo mais importante da história
Recentemente, Marx foi eleito o filósofo mais importante da história

Frase de Karl Marx:

“A união entre trabalho, instrução intelectual, exercício físico e treino politécnico elevará a classe operária”


Karl Marx nasceu em 1818 em Trier, sul da Alemanha (então Prússia). Seu pai, advogado, e sua mãe descendiam de judeus, mas haviam se convertido ao protestantismo. Estudou direito em Bonn e depois em Berlim, mas se interessou mais por filosofia e história. Na universidade, aproximou-se de grupos dedicados à política. Aos 23 anos, quando voltou a Trier, percebeu que não seria bem-vindo nos meios acadêmicos e passou a viver da venda de artigos. Em 1843, casou-se com a namorada de infância, Jenny von Westphalen. O casal se mudou para Paris, onde Marx aderiu à militância comunista, atraindo a atenção de Friedrich Engels, depois amigo e parceiro.
Foi expulso de Paris em 1845, indo morar na Bélgica, de onde também seria deportado. Nos anos seguintes, se engajou cada vez mais na organização da política operária, o que despertou a ira de governos e da imprensa. A Justiça alemã o acusou de delito de imprensa e incitação à rebelião armada, mas ele foi absolvido nos dois casos. Expulso da Prússia e novamente da França, Marx se estabeleceu em Londres em 1849, onde viveu na miséria durante 15 anos, ajudado, quando possível, por Engels. Dois de seus quatro filhos morreram no período. O isolamento político terminou em 1864, com a fundação da Associação Internacional dos Trabalhadores (depois conhecida como Primeira Internacional Socialista), que o adotou como líder intelectual, após a derrota do anarquista Mikhail Bakunin. Em 1871, a eclosão da Comuna de Paris o tornou conhecido internacionalmente. Na última década de vida, sua militância tornou-se mais crítica e indireta. Marx morreu em 1883, em Londres.

Numa de suas frases mais famosas, escrita em 1845, o pensador alemão Karl Marx (1818-1883) dizia que, até então, os filósofos haviam interpretado o mundo de várias maneiras. “Cabe agora transformá-lo”, concluía. Coerentemente com essa idéia, durante sua vida combinou o estudo das ciências humanas com a militância revolucionária, criando um dos sistemas de idéias mais influentes da história. Direta ou indiretamente, a obra do filósofo alemão originou várias vertentes pedagógicas comprometidas com a mudança da sociedade. “A educação, para Marx, participa do processo de transformação das condições sociais, mas, ao mesmo tempo, é condicionada pelo processo”, diz Leandro Konder, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

No século 20, o pensamento de Marx foi submetido a numerosas interpretações, agrupadas sob a classificação de “marxismo”. Algumas sustentaram regimes políticos duradouros, como o comunismo soviético (1917-1991) e o chinês (em vigor desde 1949). Muitos governos comunistas entraram em colapso, por oposição popular nas décadas de 1980 e 1990. Em recente pesquisa da rádio BBC, que mobilizou grande parte da imprensa inglesa, Marx foi eleito o filósofo mais importante de todos os tempos.

Luta de classes

Na base do pensamento de Marx está a idéia de que tudo se encontra em constante processo de mudança. O motor da mudança são os conflitos resultantes das contradições de uma mesma realidade. Para Marx, o conflito que explica a história é a luta de classes. Segundo o filósofo, as sociedades se estruturam de modo a promover os interesses da classe economicamente dominante. No capitalismo, a classe dominante é a burguesia; e aquela que vende sua força de trabalho e recebe apenas parte do valor que produz é o proletariado.

O marxismo prevê que o proletariado se libertará dos vínculos com as forças opressoras e, assim, dará origem a uma nova sociedade. Segundo Marx, o conflito de classes já havia sido responsável pelo surgimento do capitalismo, cujas raízes estariam nas contradições internas do feudalismo medieval. Em ambos os regimes (feudalismo e capitalismo), as forças econômicas tiveram papel central. “O moinho de vento nos dá uma sociedade com senhor feudal; o motor a vapor, uma sociedade com o capitalista industrial”, escreveu Marx.

A obra de Marx reúne uma grande variedade de textos: reflexões curtas sobre questões políticas imediatas, estudos históricos, escritos militantes – como O Manifesto Comunista, parceria com Friedrich Engels – e trabalhos de grande fôlego, como sua obra-prima, O Capital, que só teve o primeiro de quatro volumes lançado antes de sua morte. A complexidade da obra de Marx, com suas constantes autocríticas e correções de rota, é responsável, em parte, pela variedade de interpretações feitas por seus seguidores.


Trabalho e alienação

Em O Capital, Marx realiza uma investigação profunda sobre o modo de produção capitalista e as condições de superá-lo, rumo a uma sociedade sem classes e na qual a propriedade privada seja extinta. Para Marx, as estruturas sociais e a própria organização do Estado estão diretamente ligadas ao funcionamento do capitalismo. Por isso, para o pensador, a idéia de revolução deve implicar mudanças radicais e globais, que rompam com todos os instrumentos de dominação da burguesia.

Marx abordou as relações capitalistas como fenômeno histórico, mutável e contraditório, trazendo em si impulsos de ruptura. Um desses impulsos resulta do processo de alienação a que o trabalhador é submetido, segundo o pensador. Por causa da divisão do trabalho – característica do industrialismo, em que cabe a cada um apenas uma pequena etapa da produção –, o empregado se aliena do processo total.

Além disso, o retorno da produção de cada homem é uma quantia de dinheiro, que, por sua vez, será trocada por produtos. O comércio seria uma engrenagem de trocas em que tudo – do trabalho ao dinheiro, das máquinas ao salário – tem valor de mercadoria, multiplicando o aspecto alienante.

Por outro lado, esse processo se dá à custa da concentração da propriedade por aqueles que empregam a mão-de-obra em troca de salário. As necessidades dos trabalhadores os levarão a buscar produtos fora de seu alcance. Isso os pressiona a querer romper com a própria alienação.

Um dos objetivos da revolução prevista por Marx é recuperar em todos os homens o pleno desenvolvimento intelectual, físico e técnico. É nesse sentido que a educação ganha ênfase no pensamento marxista. “A superação da alienação e da expropriação intelectual já está sendo feita, segundo Marx”, diz Leandro Konder. “O processo atual se aceleraria com a revolução proletária para alcançar, afinal, as metas maiores na sociedade comunista.”

Aprendizagem para a mente, o corpo e as mãos

Combater a alienação e a desumanização era, para Marx, a função social da educação. Para isso seria necessário aprender competências que são indispensáveis para a compreensão do mundo físico e social. O filósofo alertava para o risco de a escola ensinar conteúdos sujeitos a interpretações “de partido ou de classe”. Ele valorizava a gratuidade da educação, mas não o atrelamento a políticas de Estado – o que equivaleria a subordinar o ensino à religião. Marx via na instrução das fábricas, criada pelo capitalismo, qualidades a ser aproveitadas para um ensino transformador – principalmente o rigor com que encarava o aprendizado para o trabalho. O mais importante, no entanto, seria ir contra a tendência
“profissionalizante”, que levava as escolas industriais a ensinar apenas o estritamente necessário para o exercício de determinada função. Marx entendia que a educação deveria ser ao mesmo tempo intelectual, física e técnica. Essa concepção, chamada de “onilateral” (múltipla), difere da visão de educação “integral” porque esta tem uma conotação moral e afetiva que, para Marx, não deveria ser trabalhada pela escola, mas por “outros adultos”. O filósofo não chegou a fazer uma análise profunda da educação com base na teoria que ajudou a criar. Isso ficou para seguidores como o italiano Antonio Gramsci (1891-1937), o ucraniano Anton Makarenko (1888-1939) e a russa Nadia Krupskaia (1869-1939).

Para pensar

A alienação de que fala Marx é conseqüência do afastamento entre os interesses do trabalhador e aquilo que ele produz. De modo mais amplo, trata-se também do abismo entre o que se aprende apenas para cumprir uma função no sistema de produção e uma formação que realmente ajude o ser humano a exercer suas potencialidades. Você já pensou se a educação, como é praticada a seu redor, procura dar condições ao aluno para que se desenvolva por inteiro ou se responde apenas a objetivos limitados pelas circunstâncias?

Educação e Capital

A Produtividade Da Escola Improdutiva
(Gaudencio Frigotto)


Prof. Dr. Gaudêncio Frigotto

Prof. Dr. Gaudêncio Frigotto


Denso e profundo, mas de leitura quase que obrigatória para educadores e todos aqueles que gravitam em torno do assunto educação, o livro de Gaudêncio Frigotto explora, passo a passo, as razões que levaram o exercício atual da educação a alcançar os patamares hoje vivenciados nas escolas, onde, aparentemente, a chamada economia da educação assume caráter de maior destaque, deixando a formação enquanto essência principal, em um segundo plano.

Para embasar seus argumentos, Frigotto retoma os princípios básicos da Teoria do Capital Humano que, embora duramente criticada, sempre retorna ao centro das discussões, como justificativa utilizada por aqueles que defendem uma relação direta entre o aumento da qualificação profissional e diminuição da pobreza.

Na obra em análise, entretanto, Gaudêncio Frigotto, defende argumentos que mostram que esta pobreza existente na sociedade não pode ser meramente atribuída à falta do mérito individual de cada cidadão, que não lhe permite evoluir no âmbito escolar, ou até mesmo, a ele ter acesso. Com interessantes reflexões e exemplos, o autor revela que se realmente houvesse por parte da elite, efetivo interesse em modificar o quadro de exclusão social vigente, deveria ela pautar seu discurso pela defesa de reformas sociais que objetivassem garantir aos setores mais pobres da população o acesso aos bens. E não simplesmente creditar tudo isso a ausência da educação.

Para Frigotto, a visão tecnicista da educação responde exatamente à ótica economicista do ensino, veiculada com pompa pela Teoria do Capital Humano, constituindo-se numa das principais e mais ferozes formas de desqualificação do processo educativo escolar.

Isso fica evidente quando analisada a economia global, que exige uma sociedade baseada no mundo das informações, indicando claramente que o principal recurso de crescimento individual e social é o domínio de conhecimentos.

Ora, com este enfoque, o desenvolvimento humano passa então a se tornar um importante diferencial competitivo, que segundo Frigotto, mostra de forma deliberada que a elite intelectual e, sobretudo, a econômica, deseja na verdade um trabalhador com uma nova qualificação e que contribua efetivamente para tornar as estruturas competitivas.

Entretanto, é notório que o modo como o trabalhador se apropria das informações, constrói seus conhecimentos e os aplica em suas atividades, é decorrência direta do nível em que se encontra seu grau de escolaridade. Assim, ao mesmo tempo em que grande parte da sociedade já percebeu a importância deste aspecto e o obstáculo que representa para um desenvolvimento global, outra parte significativa desta mesma sociedade discorda destes argumentos, usando como base as condições econômico-sociais existentes na atualidade.

Convencido de que tal debate é necessário, Frigotto, a seu tempo, procura superar essa discussão, construindo uma relação acerca do tema ? que embora se mostre, às vezes, contraditória, é outra tantas, convergente ? mostrando que é possível, sim, reunir educação e processo produtivo, vinculando-os de forma a valorizar o papel da escola.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

As regras do método sociológico - Émile Durkheim

Livro "Educação e Sociologia" - Durkheim



«A educação, bem longe de ter o indivíduo e os seus interesses como único e principal objectivo, é, antes de mais, o meio pelo qual a sociedade renova continuamente as condições da sua própria existência. A sociedade só pode viver se entre os seus membros existir suficiente homogeneidade. A educação perpetua e reforça tal homogeneidade, começando por fixar no espírito da criança as semelhanças essenciais que a vida colectiva requer.» Fonte: "http://www.almedina.com.br/catalog/product_info.php?products_id=3750"


Para fazer o download do livro, clique aqui

Crítica do Programa de Gotha


Prefácio à edição de 1895 da Crítica do Programa de Gotha

Friederich Engels - Janeiro de 1891

O Manuscrito que aqui publicamos - a crítica ao projecto de programa e a carta a Bracke que a acompanha - foi enviado a este, em 1875, pouco antes de se efectuar o Congresso de unidade de Gotha (1), para ser transmitido a Geib, Auer, Bebel, e Liebknecht, e, depois, devolvido a Marx. Como o congresso de Halle tinha colocado na ordem do dia do partido a discussão do programa de Gotha, parecia-me cometer um erro furtando, por mais tempo, à publicidade este importante documento - talvez o mais importante de todos quantos respeitam a esta matéria.

Tem este trabalho, além do mais, outra significação de maior alcance ainda. Expõe-se nele, pela primeira vez, clara e firmemente, a posição de Marx face às tendências denunciadas por Lassalle desde que se integrou no movimento, tanto no que toca aos seus princípios económicos como à sua táctica.

O implacável rigor com que aqui se analisa o projecto do programa, a inexorabilidade com que se expressam os resultados obtidos e se põem em relevo os erros do projecto, tudo isso, hoje, quinze anos volvidos, já não pode ferir ninguém. lassallianos específicos já só subsistem - ruínas isoladas - no estrangeiro, e o programa de Gotha foi abandonado em Halle, como absolutamente inaceitável, inclusivamente pelos seus próprios autores (2).

Apesar disso, quando não estavam em causa questões de fundo, suprimi algumas expressões e juízos ásperos sobre pessoas, e substituí-as por reticências. O próprio Marx o faria se publicasse hoje o manuscrito. A vivacidade de linguagem que, às vezes, nele se observa obedecia a duas circunstâncias. Em primeiro lugar, Marx e eu estávamos mais estritamente vinculados ao movimento alemão do que a nenhum outro; por isso, o manifesto retrocesso que este projecto de programa testemunhava, tinha, por força, que afectar-nos muito seriamente. Em segundo lugar, nós encontravamo-nos, então, - passado apenas dois anos sobre o Congresso da Internacional em Haia (3) - em pleno apogeu da luta contra Bakunine e os seus anarquistas, que nos faziam responsáveis por tudo o que se passava no movimento operário na Alemanha; era, pois, de esperar que nos atribuíssem também a paternidade secreta deste programa. Estas considerações já não têm, hoje, razão de ser, e, com elas, desaparece também a necessidade das passagens em questão.

Algumas frases foram também, por causa da lei da Imprensa, substituídas por reticências. Quando tive de escolher uma expressão mais eufemizante, pu-lo entre parêntesis. Quanto ao mais, reproduzo literalmente o manuscrito.

Londres, 6 de Janeiro de 1891

Friederich Engels

Notas:

(1) No Congresso realizado de 22 a 27 de Maio de 1785 em Gotha uniram-se as duas organizações operárias alemãs ao tempo existentes: o Partido Operário social-democrata (os eisenachianos), dirigido por Liebknecht e Bebel e a União geral do Operários Alemães, organização lassalliana dirigida por Hasenclever, Hasselmann e Tolcke, para formar uma organização única, o Partido Socialista Operário da Alemanha. (retornar ao texto)

(2) O Congresso do partido social-democrata da Alemanha, realizado em Halle - o primeiro após a derrogação da lei contra o s socialistas, aceitou, em 16 de Outubro de 1890, a proposta de W. Liebknecht, redactor principal do programa de Gotha, no sentido de preparar um projecto de novo programa para o próximo Congresso do partido. O novo programa foi aprovado em Outubro de 1891, no congresso de Erfurt (Programa de Erfurt). (retornar ao texto)

(3) O Congresso de Haia da Associação Internacional dos trabalhadores decorreu de 2 a 7 de Setembro de 1872. nele participaram 65 delegados de 11 organizações nacionais. A Marx e a Engels coube dirigir os trabalhos do Congresso, que pôs ponto final numa luta muito longa travada contra todas as variantes de espirito sectário pequeno-burguês no movimento operário. A actividade cisionista dos anarquistas, dirigidos por Bakunine, foi condenada e os seus leaders expulsos da internacional. As decisões do congresso de Haia permitiram a fundação de partidos políticos independentes da classe operária em diferentes países. (retornar ao texto)

Crítica do Programa de Gotha

GLOSAS MARGINAIS AO PROGRAMA DO PARTIDO OPERÁRIO ALEMÃO

Karl Marx

I

1. «O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura, e como o trabalho produtivo só é possível na sociedade e pela sociedade, o seu produto pertence integralmente por direito igual, a todos os membros da sociedade».

Primeira parte do parágrafo: «O trabalho é a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura».

O trabalho não é fonte de toda a riqueza. A natureza é fonte dos valores de uso (que, ao fim e ao cabo são a riqueza real!) tanto quanto o trabalho, ele próprio expressão de uma força natural, a força de trabalho do homem. Esta frase repisada encontra-se em todos os abecedários e só é verdadeira na condição de se subentender que o trabalho é anterior, com todos os objectos e processes que o acompanham. Mas um programa socialista não pode permitir que esta fraseologia burguesa passe em silêncio as condições que, só elas, Ihe podem dar sentido. E só na medida em que o homem age desde o início como proprietário em relação à natureza, a fonte primeira de todos os meios e materiais de trabalho, só enquanto a trata como um objecto que Ihe pertence, é que o seu trabalho se torna a fonte dos valores de uso e, portanto, da riqueza. Os burgueses têm excelentes razões para atribuir ao trabalho esse sobrenatural poder de criação: pois que precisamente do facto de o trabalho estar na dependência da natureza se deduz que o homem que nada possuir além da força de trabalho será forçosamente, em qualquer estado social e de civilização, escravo de outros homens que se terão erigido em detentores das condições objectivas do trabalho. Ele não pode trabalhar nem, por conseguinte, viver, a não ser com a autorização destes últimos.

Mas deixemos a proposição tal como está, ou melhor, tão manca como está. Que conclusão se deveria esperar? Evidentemente, esta:

«Como o trabalho é a fonte de toda a riqueza, ninguém na sociedade se pode apropriar de riquezas que não sejam um produto do trabalho. Portanto, quem quer que não trabalhe vive do trabalho de outrém»,

Em vez disso, à primeira proposição junta-se uma segunda por meio da locução copulativa «e como,» para tirar da segunda, e não da outra, a consequência final.

Segunda parte da proposição: «O trabalho produtivo só é possível na sociedade e pela sociedade».

Segundo a primeira proposição, o trabalho era a fonte de toda a riqueza e de toda a cultura, logo, sem trabalho a sociedade é impossível. E eis que agora, pelo contrário, aprendemos que o trabalho «produtivo», não é possível sem sociedade.

Do mesmo modo se poderia ter dito que só na sociedade é que o trabalho inútil, é até socialmente prejudicial, pode chegar a ser um ramo de indústria que só na sociedade é que se pode viver do ócio, etc., etc. - em suma, copiar de novo todo o Rousseau.

E que é um trabalho «produtivo»? Só pode ser o trabalho que produz o efeito útil procurado. Um selvagem e o homem é um selvagem desde o momento em que deixa de ser macaco - que abate um animal com uma pedrada, que apanha fruta, etc., realiza um trabalho «produtivo».

Terceira Conclusão: «E como o trabalho produtivo só é possível na sociedade e pela sociedade, o seu produto pertence integralmente, por direito igual, a todos os membros da sociedade».

Bela conclusão! Se o trabalho produtivo só é possível na sociedade e pela sociedade, o seu produto pertence a sociedade - e ao trabalhador individual caberá apenas o que não for indispensável à manutenção da sociedade, que é a própria «condição» do trabalho.

Na realidade, esta proposição foi sempre defendida pelos campeões da ordem social existente, em todas as épocas. Em primeiro lugar, vêm as pretensões do governo, com tudo o que se segue, pois o governo é o órgão da sociedade encarregado da manutenção da ordem social; depois vêm as pretensões das diversas espécies de propriedade privada, que são, todas elas, o fundamento da sociedade, etc. Como se vê, estas frases ocas podem ser viradas e reviradas no sentido que se quiser.

Só haverá uma relação lógica entre a primeira e a segunda parte do parágrafo se se adoptar a seguinte redacção :

«O trabalho só é a fonte da riqueza e da cultura se for um trabalho social», ou, o que vem a dar no mesmo: «se se realizar na sociedade e por ela».

Tese incontestavelmente exacta, porque, se o trabalho isolado (supondo realizadas as suas condições materiais) pode criar valores de uso, não pode criar nem riqueza nem cultura.

Outra tese não menos incontestável:

«Na medida em que o trabalho se transforma em trabalho social e se converte assim em fonte de riqueza e de cultura, desenvolvem-se, no trabalhador, a pobreza e o desamparo, no não-trabalhador, a riqueza e a cultura».

Esta é a lei de toda a história até hoje. Por conseguinte, em vez de frases gerais sobre o «trabalho» e a «sociedade», era preciso indicar aqui com precisão como é que, na actual sociedade capitalista, estão finalmente criadas as condições materiais e outras que permitem e obrigam o trabalhador a quebrar essa maldição social.

Mas, na realidade, todo este parágrafo, tão falhado na forma como no conteúdo, só existe para que, bem no cimo da bandeira do Partido, se possa inscrever como palavra de ordem a fórmula lassalliana do «produto integral do trabalho». Mais adiante voltarei ao «produto do trabalho», ao «direito igual», etc., porque a mesma coisa reaparece sob uma forma algo diferente.

2. «Na sociedade actual. os meios de trabalho são monopólio da classe capitalista. O estado de depend8ncia que dai resulta para a classe operária é a causa da miséria e da servidão em todas as suas formas.»

Nesta forma «melhorada», a tese, tomada dos estatutos da Internacional, é falsa.

Na sociedade actual, os meios de trabalho são monopólio dos proprietários fundiários (o monopólio da propriedade fundiária é mesmo a base do monopólio capitalista) e dos capitalistas. Os estatutos da Internacional, na passagem em questão, não mencionam nem uma nem outra classe monopolista. Falam do «monopólio dos meios de trabalho, quer dizer, das fontes da vida». A adição das palavras «fontes da vida» mostra suficientemente que a terra está compreendida entre os meios de trabalho.

Esta rectificação foi introduzida por Lassalle, por razões hoje conhecidas, atacante somente a classe capitalista e não os proprietários fundiários. Na Inglaterra, a maior parte das vezes, o capitalista não é sequer o proprietário do solo em que está construída a sua fábrica.

3. «A libertação do trabalho exige que os instrumentos de trabalho se elevem a património comum da sociedade e que o trabalho colectivo seja regulamentado pela comunidade. com repartição equitativa do produto».

«Os instrumentos de trabalho elevados ao estado de património comum» deve querer dizer, sem dúvida: «transformados em património comum». Mas isto só de passagem.

Que é o «produto do trabalho»? O objecto criado pelo trabalho ou o seu valor? E, neste último caso, o valor total do produto ou apenas a fracção de valor que o trabalho veio acrescentar ao valor dos meios de produção consumidos?

O «produto do trabalho» é uma noção vaga que em Lassalle fazia as vezes de concepções económicas positivas.

Que é a «repartição equitativa»?

Não afirmam os burgueses que a repartição actual’ é «equitativa»? E, realmente, na base do actual modo de produção, não é a única repartição «equitativa»? As relações económicas são reguladas por ideias jurídicas ou não serão, pelo contrário, as relações jurídicas que nascem das relações económicas? Os socialistas das seitas () não têm, também eles, as mais diversas concepções acerca desta repartição «equitativa»?

Para sabermos o que se deve entender, na ocorrência. pela expressão oca de «repartição equitativa», temos que confrontar o primeiro parágrafo com este. Este supõe uma sociedade na qual «os instrumentos de trabalho são património comum e em que o trabalho colectivo é regulamentado pela comunidade», ao passo que o primeiro parágrafo nos mostra que «produto pertence integralmente, por direito igual, a todos os membros da sociedade».

«A todos os membros da sociedade»? Mesmo aos que não trabalham? Que acontece então ao produto integral do trabalho» ? - Só aos membros da sociedade que trabalham? Que acontece, nesse caso, ao «direito igual» de todos os membros da sociedade?

Mas «todos os membros da sociedade, e o «direito igual» não passam, manifestamente, de maneiras de falar. O essencial está em que, nesta sociedade comunista, cada trabalhador deve receber um «produto integral do trabalho», à maneira lassalliana.

Se tomarmos em primeiro lugar a expressão «produto do trabalho» no sentido do objecto criado pelo trabalho, então o produto do trabalho da comunidade é a totalidade produto social.

Daqui tem que se deduzir:

Primeiro: um fundo destinado à substituição dos meios de produção usados;

Segundo: uma fracção suplementar para aumentar a produção;

Terceiro: um fundo de reserva ou de seguro contra os acidentes, as perturbações devidas a fenómenos naturais, etc.

Estas deduções do «produto integral do trabalhou» são uma necessidade económica, cuja importância será, em parte, determinada com a ajuda do cálculo das probabilidades, tendo em conta o estado dos meios e das forças em jogo; em todo o caso, não podem de maneira nenhuma ser calculadas com base na equidade.

Resta a outra parte do produto total, destinada ao consumo.

Mas antes de proceder à repartição individual, é preciso ainda retirar:

Primeiro: os encargos gerais da administração não respeitantes à produção.

Em comparação com o que se passa na sociedade actual, esta fracção imediatamente se reduz imenso e decresce à medida que se desenvolve a sociedade nova.

Segundo: o que se destina a satisfazer as necessidades da comunidade: escolas, instalações sanitárias, etc.

Esta fracção aumenta imediatamente de importância, em comparação com o que se passa na sociedade actual, e esta importância cresce à medida que se desenvolve a sociedade nova.

Terceiro: o fundo necessário ao sustento dos que estão incapacitados para o trabalho, etc., numa palavra que compete ao que hoje se chama assistência púbica oficial.

É só então que chagamos à única «repartição» que, sob a influência de Lassalle e dum modo limitado, o programa tem em vista, ou seja, a essa fracção dos objectos de consume que é repartida individualmente entre os produtores da colectividade.

O «produto integral do trabalho» já se metamorfoseou, imperceptivelmente, em «produto parcial», se bem que o produtor, na sua qualidade de membro da sociedade, reencontre directa ou indirectamente o que Ihe é retirado enquanto indivíduo.

Do mesmo modo como se dissipou o tempo de «produto integral do trabalho», vamos ver dissipar-se o de «produto do trabalho» em geral.

No seio de uma ordem social comunitária, assente na propriedade comum dos meios de produção, os produtores não trocam os seus produtos; do mesmo modo, o trabalho incorporado em produtos já não aparece aqui como valor desses produtos, como uma qualidade real possuída por eles, pois que, ao invés do que se passa na sociedade capitalista, já não é por um desvio mas sim directamente que os trabalhos do indivíduo se tornam parte integrante do trabalho da comunidade. A expressão «produto do trabalho», já hoje condenável pela sua ambiguidade, perde assim qualquer significado.

Do que aqui se trata é de uma sociedade comunista não como se desenvolveu sobre as bases que Ihe são próprias mas, pelo contrário tal como acaba de sair da sociedade capitalista; uma sociedade que, por consequência, em todos os aspectos, económico, moral, intelectual, apresenta ainda os estigmas da antiga sociedade que a engendrou. O produtor recebe pois individualmente - uma vez feitas as deduções - o equivalente exacto do que deu à sociedade. O que ele Ihe deu foi a sua quota-parte individual de trabalho. Por exemplo, o dia social de trabalho representa a soma das horas de trabalho individual; o tempo de trabalho individual de cada produtor é a porção do dia social de trabalho que forneceu, a parte que nele tomou. Ele recebe da sociedade um vale certificando que forneceu tanto trabalho (dedução feita do trabalho efectuado para os fundos colectivos) e, com esse vale, retira dos armazéns sociais uma quantidade de objectos de consumo, equivalente ao custo de uma quantidade igual do seu trabalho. A mesma quota-parte de trabalho que deu à sociedade sob uma forma, recebe-a de volta sob outra forma.

Trata-se aqui manifestamente do mesmo princípio que regula a troca das mercadorias, na medida em que é troca de valores iguais. O fundo e a forma diferem porque, sendo diferentes as condições, ninguém pode fornecer senão o seu trabalho e, por outro lado, só objectos de consumo individual podem passar a ser propriedade do indivíduo. Mas no que respeita à repartição destes objectos entre produtores considerados individualmente, o princípio director é o mesmo que para a troca de mercadorias equivalentes: uma mesma quantidade de trabalho, sob uma forma, troca-se por uma mesma quantidade de trabalho, sob outra forma.

O direito igual continua aqui portanto, no seu princípio, a ser o direito burguês, se bem que princípio e prática já não entrem em conflito, ao passo que hoje, para as mercadorias, a troca de equivalentes só existe em média e não nos casos individuais.

Apesar deste progresso, o direito igual ainda continua onerado por uma limitação burguesa. O direito do produtor é proporcional ao trabalho que forneceu; a igualdade consiste aqui no emprego do trabalho como unidade de medida comum.

Mas uns indivíduos são física ou moralmente superiores a outros e, portanto, fornecem mais trabalho no mesmo tempo ou podem trabalhar mais tempo, e para que o trabalho possa servir de medida, é precise determinar a sua duração ou a sua intensidade, senão deixaria de ser unidade. Esse direito igual é um direito desigual para um trabalho desigual. Não reconhece nenhuma distinção de classe, porque cada homem é um trabalhador como os outros; mas reconhece tacitamente como privilégio natural a desigualdade dos dons individuais e, por conseguinte, da capacidade de rendimento. Portanto, no seu teor, é um direito baseado na desigualdade, como todo o direito. Pela sua natureza, o direito não pode deixar de consistir no emprego de uma mesma unidade de medida; mas os indivíduos desiguais (e não seriam indivíduos distintos se não fossem desiguais) só são mensuráveis por uma unidade comum enquanto forem considerados de um mesmo ponto de vista, apreendidos por um só aspecto determinando; por exemplo, no caso presente, enquanto forem considerados como trabalhadores e nada mais, fazendo-se abstracção de tudo o resto. Por outro lado: um operário é casado, outro não; um tem mais filhos que o outro, etc., etc. Com igualdade de trabalho e, por conseguinte, igualdade de participação no fundo social de consumo, há portanto uns que efectivamente recebem mais que os outros, uns que são mais ricos que os outros, etc. Para evitar todos estes inconvenientes, o direito deveria ser não igual, mas desigual.

Mas estes defeitos são inevitáveis na primeira fase da sociedade comunista, tal como acaba de sair da sociedade capitalista, após um longo e doloroso parto. O direito nunca pode ser mais elevado que o estado económico da sociedade e o grau de civilização que Ihe corresponde.

Numa fase superior da sociedade comunista, quando tiver desaparecido a escravizante subordinação dos indivíduos à divisão do trabalho e, com ela, a oposição entre o trabalho intelectual e o trabalho manual; quando o trabalho não for apenas um meio de viver, mas se tornar ele próprio na primeira necessidade vital; quando, com o desenvolvimento múltiplo dos indivíduos, as forças produtivas tiverem também aumentado e todas as fontes da riqueza colectiva brotarem com abundância, só então o limitado horizonte do direito burguês poderá ser definitivamente ultrapassado e a sociedade poderá escrever nas suas bandeiras: «De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas necessidades!»

Alonguei-me particularmente sobre o «produto integral do trabalho», sobre o «direito igual» e a «repartição equitativa», a fim de mostrar como é criminoso o intento dos que, por um lado, querem impor doravante ao nosso Partido, como dogmas, concepções que tiveram algum significado numa determinada época mas não passam hoje de uma fraseologia obsoleta e que, por outro lado, falseiam a concepção realista com tanto esforço inculcada no Partido, mas hoje com profundas raízes nele; e tudo isto com a ajuda das patranhas de uma ideologia jurídica ou outra, tão familiares aos democratas e socialistas franceses.

Mesmo abstraindo de tudo o que acaba de ser dito, era de qualquer modo um erro dar tanta importância ao que se chama a repartição e nela colocar a tónica.

Em todas as épocas, a repartição dos objectos de consumo é consequência do modo como estão distribuídas as próprias condições da produção. Mas esta distribuição é uma característica do próprio modo de produção. O modo de produção capitalista, por exemplo, consiste em que as condições materiais de produção são atribuídas aos não-trabalhadores sob a forma de propriedade capitalista e de propriedade fundiária, ao passo que a massa apenas possui as condições pessoais de produção: a forca de trabalho. Distribuídos desta maneira os elementos da produção, a actual repartição dos objectos de consumo resulta naturalmente por si mesma. Sejam as condições materiais da produção propriedade colectiva dos próprios trabalhadores, e do mesmo modo resultará uma repartição dos objectos de consumo diferente da actual. O socialismo vulgar (e com ele, por sua vez, uma fracção da democracia) herdou dos economistas burgueses o hábito de considerar e tratar a repartição como uma coisa independente do modo de produção e de, por essa razão, representar o socialismo a girar essencialmente em torno da repartição. Uma vez que as relações reais foram há muito esclarecidas, para quê voltar atrás?

4. «A libertação do trabalho deve ser obra da classe operária, em face da qual todas as outras classes não formam mais do que uma massa reaccionária».

A primeira estrofe é tirada do preâmbulo dos estatutos da Internacional, mas sob uma forma «melhorada». O preâmbulo diz: «A emancipação da classe dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores; ao passo que aqui é a «classe dos trabalhadores» que deve emancipar - o quê? O «trabalho». Compreenda quem puder.

Em compensação, a antístrofe é uma citação lassalliana da mais pura água: «em face da qual (classe operária) todas as outras classes não formam mais do que uma massa reaccionária».

No Manifesto Comunista diz-se: «De todas as classes que na hora actual se opõem à burguesia, só o proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária. As outras classes enfraquecem e desaparecem com a grande indústria; o proletariado, pelo contrário, é o seu produto mais autêntico».

A burguesia é considerada aqui como uma classe revolucionária - enquanto agente da grande indústria - em relação aos feudais e às classes médias decididos a manter todas as suas posições sociais, que são produto de modos de produção caducos. Feudais e classes médias não formam portanto com a burguesia uma mesma massa reaccionária.

Por outro lado, o proletariado é revolucionário frente à burguesia porque, resultante ele próprio da grande indústria, tende a despojar a produção do seu carácter capitalista, que a burguesia procura perpetuar. Mas o Manifesto acrescenta que «as classes médias... se tornam revolucionárias... na perspectiva da sua passagem iminente ao proletariado».

Deste ponto de vista, portanto, é mais um absurdo fazer das classes médias, juntamente com a burguesia e, ainda por cima, com os senhores feudais, «uma mesma massa reaccionária» face à classe operária.

Será que nas últimas eleições se gritou aos artesãos, aos pequenos industriais, etc., e aos camponeses: «Perante nós, vocês, com os burgueses e os senhores feudais, não formam mais do que uma única massa reaccionária»?

Lassalle sabia de cor o Manifesto Comunista, do mesmo modo que os seus fiéis sabem as sagradas escrituras de que ele é autor. Se o falsificava tão grosseiramente, era apenas para dissimular a sua aliança com os adversários absolutistas e feudais contra a burguesia.

No parágrafo citado, aliás, a sua máxima é agarrada pelos cabelos, sem qualquer relação com a citação desfigurada dos estatutos da Internacional. Trata-se aqui muito simplesmente de uma impertinência e, na verdade, de uma impertinência que de modo algum pode ser desagradável aos olhos do Sr. Bismark; uma dessas garotices baratas em que é especialista o Marat berlinense.()

5. «A classe operária trabalha para a sua libertação, em primeiro lugar, no quadro do actual Estado nacional. sabendo bem que o resultado necessário dos seus esforços comuns aos operários de todos os países civilizados, será a fraternidade internacional dos povos».

Contrariamente ao Manifesto Comunista e a todo o socialismo anterior, Lassalle tinha concebido o movimento operário do ponto de vista mais estreitamente nacional. E depois da actividade da Internacional, ainda o seguem neste terreno!

É absolutamente evidente que, para poder lutar, a classe operária tem de se organizar enquanto classe no seu próprio país, e que os respectivos países são o teatro imediato da sua luta. É nisso que a luta de classe é nacional, não no seu conteúdo, mas como diz o Manifesto Comunista, «na sua forma». Mas o próprio «quadro do actual Estado nacional», por exemplo, o do Império alemão, entra por sua vez, economicamente, «no quadro» do mercado universal e, politicamente, «no quadro» do sistema dos Estados. Qualquer comerciante sabe que o comércio alemão é também comércio externo e a grandeza do Sr. Bismark reside precisamente no carácter da sua política internacional.

E a que é que o Partido Operário Alemão reduz o seu internacionalismo? À consciência de que o resultado dos seus esforços «será a fraternidade internacional dos povos» - expressão tirada da Liga burguesa para a paz e a liberdade,() que se queria fazer passar por um equivalente da fraternidade internacional das classes operárias na sua luta comum contra as classes dominantes e os seus governos. Das funções internacionais da classe operária alemã, por conseguinte, nem uma palavra! E é assim que ela quer dobrar a parada face à sua própria burguesia, que já fraterniza contra ela com os burgueses de todos os outros países, bem como à política de conspiração internacional do Sr. Bismark!

Na realidade, a profissão de internacionalismo do programa está ainda infinitamente abaixo da do partido livre-cambista. Também este pretende que o resultado final da sua acção é a «fraternidade internacional dos povos». Mas esse ainda faz alguma coisa para internacionalizar o comércio e de maneira nenhuma se contenta em saber que cada povo faz comércio no seu país.

A acção internacional das classes operárias não depende de modo algum da existência da Associação Internacional dos Trabalhadores.() Esta foi somente a primeira tentativa para dotar essa acção de um órgão central; tentativa que, pelo impulso dado, teve consequências duradouras, mas que, na sua primeira forma histórica, não podia sobreviver muito tempo à queda da Comuna de Paris.

A Norddeutsche() de Bismark estava no seu pleno direito ao anunciar, para satisfação do seu dono, que o Partido Operário Alemão, no seu novo programa renunciou ao internacionalismo.

II

«Partindo destes princípios. o Partido Operário Alemão esforça-se. por todos os meios legais, por fundar o Estado livre-e-a sociedade socialista; por abolir o sistema assalariado com a lei de bronze dos salários... bem como... a exploração em todas as suas formas; por eliminar toda a desigualdade social e política».

Quanto ao Estado «livre», mais adiante voltarei a ele. Com que então, de futuro, o Partido Operário Alemão terá de acreditar na «lei de bronze» de Lassalle! Para não arruinar esta lei, comete-se a insensatez de falar em «abolir o sistema assalariado» (era preciso dizer: sistema do salariato) «com a lei de bronze dos salários». Se eu suprimo o salariato, suprimo naturalmente ao mesmo tempo as suas leis, sejam elas «de bronze» ou de esponja. Mas a luta de Lassalle contra o salariato gravita quase exclusivamente em torno desta pretensa lei. Em consequência, para ficar bem claro que a seita de Lassalle venceu, é preciso que o «sistema assalariado» seja abolido «com a lei de bronze dos salários», e não com ela.

Da «lei de bronze dos salários», como se sabe, nada pertence a Lassalle, a não ser a expressão «de bronze», que ele foi buscar às «leis eternas, às grandes leis de bronze» de Goethe. A expressão de bronze é a senha pela qual os crentes ortodoxos se reconhecem. Mas se eu admitir a lei com o selo de Lassalle e, por conseguinte, na acepção em que ele a toma, é preciso que admita igualmente o seu fundamento. E que fundamento! Como o mostrava Lange, pouco após a morte de Lassalle, é a teoria malthusiana() da população (pregada pelo próprio Lange). Mas se esta teoria é correcta, eu não posse abolir a lei, mesmo que suprima cem vezes o salariato, porque nesse caso a lei não rege só o sistema do salariato, mas todo e qualquer sistema social. É precisamente com base nisto que os economistas, desde há cinquenta anos e mais, têm demonstrado que o socialismo não pode suprimir a miséria, determinada pela natureza das coisas, mas apenas generalizá-la, espalhá-la simultaneamente por toda a superfície da sociedade!

Mas o principal não é isso. Abstraindo completamente da falsa versão lassalliana desta lei, o recuo verdadeiramente revoltante consiste no seguinte:

Desde a morte de Lassalle que o nosso Partido se abriu à perspectiva científica segundo a qual o salário do trabalho não é o que parece ser, a saber, o valor (ou o preço) do trabalho, mas tão-somente uma forma disfarçada do valor (ou do preço) da força do trabalho. Assim, duma vez por todas, estava posta de parte a velha concepção burguesa do salário, bem como todas as críticas até então dirigidas contra ela, e estava claramente estabelecido que o operário assalariado só é autorizado a trabalhar para assegurar a sua própria existência, por outras palavras, a existir, conquanto trabalhe gratuitamente em certo tempo para os capitalistas (e, por conseguinte, para os que, com estes últimos, vivem de mais-valia); que todo o sistema de produção capitalista visa prolongar este trabalho gratuito pela extensão do dia de trabalho ou pelo desenvolvimento da produtividade, quer dizer, por uma maior tensão da força de trabalho, etc.; que o sistema de trabalho assalariado é, por consequência, um sistema de escravidão e, a falar verdade, uma escravidão tanto mais dura quanto mais se desenvolvem as forças sociais produtivas do trabalho, seja qual for o salário, bom ou mau, que o operário recebe. E agora que esta perspectiva penetra cada vez mais no nosso Partido, volta-se aos dogmas de Lassalle, quando se deveria saber que Lassalle ignorava o que é o salário e que, na peugada dos economistas burgueses, tomava a aparência pela própria coisa.

É como se, numa revolta, de escravos que teriam finalmente penetrado no segredo da escravatura, um escravo preso a concepções antiquadas inscrevesse no programa da revolta: a escravatura deve ser abolida porque, no sistema de escravatura, o sustento dos escravos não pode ultrapassar um determinado máximo, pouco elevado!

O simples facto de os representantes do nosso Partido terem podido cometer um atentado tão monstruoso contra a concepção divulgada na massa do Partido mostra a ligeireza criminosa, a má fé com que eles trabalharam na redacção do programa de compromisso!

Em vez da vaga fórmula redundante com que termina o parágrafo: «eliminar toda a desigualdade social e política», era preciso dizer: com a supressão das diferenças de classe desaparece por si mesma toda a desigualdade social e política resultantes dessas diferenças.

III

«O Partido Operário Alemão reclama, para preparar as vias para a solução da questão social, o estabelecimento de sociedades de produção com a ajuda do Estado sob o controlo democrático do povo dos trabalhadores. As sociedades de produção devem ser criadas na indústria e na agricultura com uma amplitude tal que delas resulte a organização socialista do conjunto do trabalho».

Depois da «lei de bronze do salário» de Lassalle, a panaceia do profeta. «Preparam-se as vias» de uma maneira digna. Substitui-se a luta de classes existente por uma fórmula oca de jornalista: a «questão social», para cuja «solução» Se «preparam as vias». Em vez de resultar do processo de transformação revolucionária da sociedade, «a organização socialista do conjunto do trabalho» «resulta» da «ajuda do Estado», ajuda que o Estado fornece às cooperativas de produção que ele próprio (e não o trabalhador) «criou». Acreditar que se pode construir uma sociedade nova por intermédio de subvenções do Estado tão facilmente como se constrói um novo caminho de ferro, eis uma coisa bem digna da Imaginação de Lassalle!

Por um resto de pudor, coloca-se «a ajuda do Estado»... sob o controlo democrático do «povo dos trabalhadores».

Em primeiro lugar, O «povo dos trabalhadores» na Alemanha, compõe-se de uma maioria de camponeses e não de proletários.

Em seguida, «democrático» diz-se em alemão volksherrschaftlich. Mas então que significa o «controlo popular e soberano do povo dos trabalhadores?» E isso, mais precisamente, para um povo de trabalhadores que a solicitar o Estado desta maneira, manifesta a sua plena consciência de que não está nem no poder, nem maduro para o poder!

Quanto à receita prescrita por Buchez, sob Luís Filipe, em oposição aos socialistas franceses e que foi retomada pelos operários reaccionários do Atelier,() não vale a pena determo-nos a fazer a sua crítica. Tanto mais que o pior escândalo não é o facto de esta cura milagrosamente específica figurar no programa mas, ao fim e ao cabo, que se abandone o ponto de vista da acção de classe para voltar ao da acção de seita.

Dizer que aos trabalhadores querem instaurar as condições da produção colectiva à escala da sociedade e, para começar, no seu país, à escala nacional, significa somente que eles trabalham para derrubar as condições de produção actuais; e isso não tem nada que ver com a criação de sociedades cooperativas subvencionadas pelo Estado. E quanto às sociedades cooperativas actuais, elas só têm valor enquanto são criadas independentes nas mãos dos trabalhadores e não são protegidas nem pelos governos nem pelos burgueses.

IV

E agora chego à parte democrática.

A.) «Livre fundamento do Estado.»,

Antes de mais, de acordo com o capítulo II, o Partido Operário Alemão procura realizar o «Estado livre».

Que quer dizer: Estado livre?

O objectivo dos trabalhadores que se libertaram da estreita mentalidade de humildes súbditos não é, de modo algum, tornar livre o Estado. No Império alemão, o «Estado» é quase tão «livre» como na Rússia. A liberdade consiste em transformar o Estado, organismo que é colocado acima da sociedade, num organismo inteiramente subordinado a ela; e mesmo nos nossos dias as formas do Estado são mais ou menos livres ou não livres na medida em que limitem a «liberdade do Estado».

O Partido Operário Alemão - pelo menos, se fizer seu este programa - mostra que as ideias socialistas não o tocam nem ao de leve; em vez de se tratar a sociedade presente (e isto é válido para qualquer sociedade futura) como o fundamento do Estado presente (ou futuro, para a sociedade futura), trata-se pelo contrário o Estado como uma realidade independente, que possui os seus próprios «fundamentos intelectuais, morais e livres».

E, para cúmulo, que monstruoso abuso faz o programa das expressões «Estado actual», «sociedade actual» e que confusão, ainda mais monstruosa, cria a propósito do Estado, ao qual se dirigem as suas reivindicações!

A «sociedade actual» é a sociedade capitalista que existe em todos os países civilizados, mais ou menos expurgada de elementos medievais, mais ou menos modificada pela evolução histórica particular de cada pais, mais ou menos desenvolvida. O «Estado actual», pelo contrário, muda com a fronteira. É diferente no Império prussiano-alemão e na Suíça, na Inglaterra e nos Estados Unidos. O «Estado actual» é pois uma ficção.

No entanto, os diversos Estados dos diversos países civilizados, não obstante a múltipla diversidade das suas formas, têm todos em comum o facto de que assentam no terreno da sociedade burguesa moderna, mais ou menos desenvolvida do ponto de vista capitalista. É o que faz com que certos caracteres essenciais Ihes sejam comuns. Neste sentido, pode falar-se do «Estado actual» tomado como expressão genérica, por contraste com o futuro em que a sociedade burguesa, que no presente Ihe serve de raiz, terá deixado de existir.

Então surge a pergunta: que transformação sofrerá o Estado numa sociedade comunista? Por outras palavras: que funções sociais análogas às actuais funções do Estado subsistirão? Só a ciência pode responder a esta pergunta; e não é juntando de mil maneiras a palavra Povo com a palavra Estado que se fará avançar o problema um passo que seja.

Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista situa-se o período de transformação revolucionária de uma na outra, a que corresponde um período de transição política em que o Estado não poderá ser outra coisa que não a ditadura revolucionária do proletariado.

Mas o programa, por agora, não se ocupa nem desta última nem do Estado futuro na sociedade comunista.

As suas reivindicações não contêm nada mais que a velha ladainha democrática conhecida de toda a gente: sufrágio universal, legislação directa, direito do povo, milícia popular, etc. São simplesmente o eco do Partido Popular burguês, da Liga da Paz e da Liberdade. Nada mais que reivindicações já realizadas, quando não são noções marcadas por um exagero fantástico. Só que o Estado que as realizou não existe de modo algum no interior das fronteiras do Império alemão, mas na Suíça, nos Estados Unidos, etc. Esta espécie de «Estado do futuro» é um Estado bem actual, ainda que exista fora do «quadro» do Império alemão.

Mas uma coisa foi esquecida. Já que o Partido Operário Alemão declara expressamente que se move no seio do «Estado nacional actual», portanto, do seu próprio Estado, o Império prussiano-alemão - senão as suas reivindicações seriam na maior parte absurdas, porque só se reclama o que se não tem -, o Partido não devia ter esquecido o ponto capital, a saber: todas estas belas pequenas coisas implicam o reconhecimento do que se chama a soberania do povo e, portanto, só têm cabimento numa república democrática.

Já que não se ousa - e a abstenção é correcta, porque a situação exige prudência - reclamar a república democrática, como o faziam nos seus programas os operários franceses, sob Luís Filipe e Luís Napoleão, também era preciso recolher a esta intrujice tão pouco «honesta»() como respeitável que consiste em reclamar coisas que só têm sentido numa república democrática a um Estado que não passa de um despotismo militar, com uma armadura burocrática e blindagem policial, adornado de formas parlamentares, com misturas de elementos feudais e de influências burguesas, e, para além disso tudo, em assegurar alto e bom som a esse Estado que se acredita ser possível impor-lhe tais coisas «por meios legais»!

A própria democracia vulgar, que vê na república democrática o advento do reino milenário, e que não tem a menor suspeita de que é precisamente sob esta última forma de Estado da sociedade burguesa que se travará a suprema batalha entre as classes, a própria democracia está ainda cem côvados acima de um democratismo deste género, confinado aos limites do que é autorizado pela polícia e proibido pela lógica.

Que por «Estado» se entende, efectivamente, a máquina governamental, ou então o Estado enquanto constitui, em consequência da divisão do trabalho, um organismo próprio, separado da sociedade, indicam-no já estas palavras: «O Partido Operário Alemão reclama como base económica do .Estado: um imposto único e progressivo sobre o rendimento, etc.» Os impostos são a base económica da máquina governamental e nada mais. No Estado do futuro, tal como existe na Suíça, esta reivindicação está razoavelmente satisfeita. O imposto Sobre o rendimento pressupõe fontes de rendimento diferentes de classes sociais diferentes, pressupõe portanto a sociedade capitalista. Por, conseguinte, não é nada de surpreendente que o Financial Reformers de Liverpool - que são burgueses, com o irmão de Gladstone à cabeça - formulem a mesma reivindicação que o programa.

B) «O Partido Operário Alemão reclama como base intelectual e moral do Estado:

1. Educação geral do povo, igual para todos. a cargo do Estado. Obrigação escolar para todos. Instrução gratuita.»

Educação do povo, igual para todos? Que se quer dizer com estas palavras? Acreditar-se-á que, na sociedade actual (e é dela que se trata), a educação possa ser a mesma para todas as classes? Ou querer-se-á então obrigar pela força as classes superiores a receberem apenas o ensino restrito na escola primária, o único compatível com a situação económica não só dos operários assalariados mas também dos camponeses?

«Obrigação escolar para todos. Instrução gratuita.» A primeira até já existe na Alemanha, a segunda na Suíça e nos Estados Unidos para as escolas primárias. Se, em certos Estados deste último país, há estabelecimentos de ensino superior igualmente «gratuitos» isso apenas significa que, de facto, nesses Estados as despesas escolares das classes superiores são pagas com as receitas gerais dos impostos. Diga-se de passagem que o mesmo acontece com a «administração gratuita de justiça» reclamada no artigo A, 5. A justiça penal é gratuita em toda a parte; a justiça civil gira quase unicamente em torno dos litígios de propriedade e afecta portanto, quase unicamente, as classes possuidoras. Irão elas sustentar os seus processes à custa do tesouro público ?

O parágrafo relativo às escolas deveria, pelo menos exigir escolas técnicas (teóricas e práticas) adjuntas à escola primária.

Uma «educação do povo a cargo do Estado» é absolutamente inadmissível. Determinar por uma lei geral os recursos das escolas primárias, as aptidões exigidas ao pessoal docente, as disciplinas ensinadas, etc., e, como acontece nos Estados Unidos, fiscalizar por meio de inspectores do Estado a execução destas prescrições legais é completamente diferente de fazer do Estado o educador do povo! Pelo contrário, é preciso, pelas mesmas razoes, banir da escola qualquer influência do governo e da Igreja. Sobretudo no Império prussiano-alemão (e não se recorra à evasiva falaciosa de falar num certo «Estado do futuro»; nós já vimos o que ele é) é, pelo contrário, o Estado que precisa de ser rudemente educado pelo povo.

Aliás, todo o programa, apesar do seu badalar democrático, está infectado duma ponta à outra pela servil crença da seita lassalliana no Estado, ou, o que não é melhor, pela crença no milagre democrático; ou antes, é um compromisso entre estas duas espécies de fé no milagre, igualmente afastadas do socialismo. «Liberalidade da ciência», diz um parágrafo da Constituição prussiana. Porquê então pô-la aqui?

«Liberdade de consciência!» Se, nestes tempos de Kulturkcampf,() se queria recordar ao liberalismo as suas velhas palavras de ordem, só se podia fazê-la desta forma: «Toda a gente deve poder satisfazer as suas necessidades religiosas e corporais, sem que a polícia meta o nariz.» Mas o Partido Operário devia aproveitar a ocasião para exprimir a sua convicção de que a «liberdade de consciência burguesa não é mais que a tolerância de todas as espécies possíveis de liberdade de consciência religiosa, ao passo que ele se esforça por libertar as consciências da fantasmagoria religiosa, Mas prefere-se não ultrapassar o nível «burguês».

E com isto chego ao fim, pois o apêndice que acompanha o programa não constitui uma parte característica do mesmo. Por isso serei muito breve.

2. «Dia normal de trabalho».

Em nenhum outro país se limita o partido operário a uma reivindicação tão imprecisa, mas estabelece sempre a duração do dia de trabalho que, de acordo com as circunstâncias, considera normal.

3. «Limitação do trabalho das mulheres e proibição do trabalho das crianças.»

A regulamentação do dia de trabalho deve implicar já a limitação do trabalho das mulheres no que diz respeito à duração, às pausas, etc., do dia de trabalho; a não ser assim, só pode significar a exclusão das mulheres dos ramos de indústria que são particularmente prejudiciais à sua saúde física ou contrárias à moral, do ponto de vista do sexo. Se era isto que se tinha em vista, era precise dizê-lo.

«Proibição do trabalho das crianças»! Era absolutamente indispensável indicar o limite de idade.

Uma proibição geral! do trabalho das crianças é incompatível com a própria existência da grande indústria; não passa, portanto, de um voto ingénuo e estéril. A aplicação desta medida, se ela fosse possível, seria reaccionária, porque, desde que esteja assegurada uma estrita regulamentação do tempo de trabalho segundo as idades bem como outras medidas de protecção das crianças, o facto de se combinar desde cedo o trabalho produtivo com a instrução é um dos meios mais poderosos de transformação da sociedade actual.

4. «Fiscalização pelo Estado do trabalho nas fábricas, nas oficinas e no domicílio.»

Tratando-se do Estado prussiano-alemão, era absolutamente necessário exigir que os inspectores sejam revogáveis apenas pelos tribunais; que qualquer operário possa entregá-los à justiça por falta aos seus deveres; que sejam médicos de profissão.

5. «Regulamentação do trabalho nas prisões.»

Reivindicação mesquinha num programa geral operário. De qualquer modo, era preciso dizer claramente que não se pretende que os criminosos de direito comum, por medo da sua concorrência, sejam tratados como gado e que não se tem a intenção de Ihes retirar precisamente o que é o seu único meio de correcção, o trabalho produtivo. Era o mínimo que se podia esperar de socialistas.

6. «Uma lei eficaz sobre a responsabilidade.»()

Era preciso dizer o que se entende por uma lei «eficaz» sobre a responsabilidade.

Notemos de passagem que, a propósito do dia normal de trabalho, foi esquecida a parte da legislação das fábricas que diz respeito aos regulamentos sobre a higiene e às medidas a tomar contra os acidentes, etc. A lei sobre a responsabilidade entra em aplicação quando estas prescrições são infringidas.

Em resumo, este apêndice também se distingue pela sua redacção desleixada.

KARL MARX

Carta a W. Bracke

Karl Marx - Maio 1875

Londres, 5 de Maio de 1875

Meu caro Bracke:

Peço-lhe que, depois de lê-los, transmita a Geib, Auer, Bebel e Liebknecht, os adjuntos comentários críticos ao programa de unificação. Estou ocupadíssimo e vejo-me obrigado a ultrapassar em muito o regime de trabalho que me foi prescrito pelos médicos. Não foi, pois, para meu prazer que escrevi este longo texto. Mas era necessário fazê-lo, para que os amigos do Partido, a quem são destinadas estas notas, não viessem, mais tarde, a interpretar mal os passos que eu poderia ter que dar.

Depois do congresso da unificação Engels e eu tornaremos pública uma breve declaração fazendo saber que não estamos de acordo com o dito programa de princípios e que nada temos a ver com ele.

É indispensável fazê-lo, pois tem-se propagado, no estrangeiro, a ideia, absolutamente errónea (conquanto fomentada, cuidadosamente, pelos inimigos do Partido), de que nós dirigimos daqui, secretamente, o movimento do Partido dito de Eisenach (1). Todavia, num escrito (2) que há pouco publicou em russo, Bakunine, por exemplo, faz-me responsável, não apenas por todos os programas, etc., deste partido, mas também por todos os passos dados por Liebknecht desde o dia em que iniciou a sua cooperação com o Partido Popular (Volkspartei) (3).

Àparte isto, tenho o dever de não reconhecer, nem tão pouco mediante um silêncio diplomático, um programa que é, em minha convicção, absolutamente inadmissível para o Partido.

- Vale mais cada passo em frente, cada progressão real, do que meia dúzia de programas. Portanto, se não era possível - e as circunstâncias do momento não o consentiam - ir além do programa de Eisenach (4), dever-se-ia apenas concertar um acordo para a acção contra o inimigo comum. Se se fabricam, pelo contrário, programas de princípios (em vez de diferir a sua elaboração até ao momento em que uma prolongada actuação conjunta tivesse preparado programas congéneres), colocam-se perante todo o mundo as balizas porque se mede o nível dos movimentos do Partido. Os chefes dos lassallianos vieram até nós porque as circunstâncias os obrigaram a isso. E se, desde o primeiro momento, se lhes tivesse feito saber que não seriam permitidas quaisquer negociatas no que toca a princípios, teriam que contentar-se com um programa de acção conjunta. Em vez disto, consente-se-lhes que se apresentem munidos de mandatos que se reconhecem terem força obrigatória, colocando-nos, deste modo, à mercê de quem necessitava de nós. E, para cúmulo, realizam um novo congresso antes do congresso de compromisso, enquanto o nosso Partido reúne o seu post festum (5). Quis-se com isto, sem dúvida, escamotear toda a crítica e não permitir que o próprio Partido reflectisse. É sabido que o simples facto da unificação satisfaz, por si só, os operários, mas engana-se quem pense que este êxito efémero não custou demasiado caro.

Além do mais, mesmo abstraindo da canonização do artigos de fé de Lassalle, o programa não vale nada.

Enviar-lhe-ei proximamente os últimos fascículos da edição francesa do «Capital» (6). A edição esteve suspensa por largo tempo devido à proibição do governo francês. Mas nesta semana ou nos começos da próxima estará pronta. Recebeu os seus fascículos anteriores? Agradecia-lhe que me comunicasse o endereço de Bernhard Becker, a quem também remeterei os últimos fascículos.

A livraria do «Volksstaat» (7) trabalha à sua maneira. Assim, por exemplo, não recebi ainda um único exemplar da tiragem do «Processo dos Comunistas de Colónia».

Saudações cordiais

Seu

Karl Marx


Notas:

(1) Em Eisenach, no Congresso do social-democratas da Alemanha, da Áustria e da Suiça, realizado nos dias 7,8 e 9 de Agosto de 1869, foi fundado o Partido operário social-democrata da Alemanha, conhecido, por isso, como partido dos eisenachianos. Quanto ao essencial, o programa adoptado no congresso estava conforme às exigências da internacional.

(2) Refere-se à obra de Bakunine intitulada «O Estado e a Anarquia» - (Zurique 1873).

(3) O Partido Popular Alemão (volkspartei), fundado em Darmstad em 1865, era composto por elementos democráticos oriundos da pequena burguesia e, principalmente, da burguesia, sobretudo dos estados da alemanha do sul. Este partido opunha-se à instauração da hegemonia prussiana na Alemanha e defendia o plano dito da «Grande Alemanha» que devia englobar a Prússia e a Áustria. Preconizando a criação dum estado alemão federal, pronunciava-se contra a unificação da Alemanha sob a forma de uma república democrática centralizada.

(4) Trata-se do programa adoptado pelo congresso pan-alemão dos social-democratas da Alemanha, Áustria e Suiça, realizado em Eisenach, a que se refere uma das notas anteriores.

(5) Depois da festa feita, ou seja, com atraso.

(6) A tradução francesa do Tomo I de «O Capital» publicou-se em Paris, sob controlo de Marx, em fascículos, durante os anos de 1872 a 1875.

(7) Trata-se das edições do Partido social-democrata em Leipzig, de que A. Bebel era director, que, entre outras publicações, fazia sair o «Volksstaat» («Estado Popular») órgão central do Partido, que se publicou de 1869 a 1876.

publicado por Augusto Cleybe, 21/09/2011